54- A PRESENÇA COMPLETA AO ÚNICO AMOR


A verdadeira oração de Recolhimento, como proposta de Teresa...oração que lhe foi «ensinada» e indicada pelo próprio Senhor...é precisamente isto: chegar a possuir-se de tal forma que a própria presença seja completa ao Único Amor...

Quer queiremos quer não...na eternidade O Senhor será o Único e fundamental Amor de todos os seus amigos reunidos junto d'Ele! 

Ser casado ou solteiro...nada tira a esta centralidade de Deus na tua vida...antes a enriquece de tal maneira que  os variados estados de vida são meios privilegiados para chegar a essa centralidade...um alimenta o outro!

Por isso é tão importante que os afectos estejam em equilibrio...e nunca fazer das situações ou das pessoas o nosso único horizonte apoiando-nos neles como se fossem a nossa inabalável segurança afectiva e existencial.  

Viver assim é viver num grande engano, numa sedutora mentira que mais cedo ou mais tarde nos sairia muito caro!

Dizia Teresa: «Livremo-nos destas boas intenções que nos saem muito caras!».

Aos poucos...mergulhar na presença de Deus nesta oração de recolhimento, é grande ajuda para nos assenhorearmos da nossa própria vida, dependendo de Deus somente, naquilo que só d'Ele pode depender: a nossa felicidade...a liberdade interior...a centralidade no essencial...

53 - QUEM NÃO ENCONTRA O SEU "EU" NÃO PODERÁ SER "ELE PRÓPRIO"


 Não tenhamos receio... a resposta de Deus é maravilhosa! Procuremos, com coragem, fazer  a aprendizagem da própria pobreza.

Quando sabemos e aceitamos - na paz - que temos defeitos e incapacidades, que não podemos grande coisa na mudança de nós mesmos, então o coração é recuperado para a mudança necessária.

Vejamos:

1. Quem não encontra o seu «eu» não poderá ser «ele próprio»

2. Para alguém dar-se é necessário possuir-se.

3. Para se relacionar é preciso a auto-presença.

4. A experiência afectuosa do trato de Amizade com Deus, nasce da profundidade da ATENÇÃO PLENA
 
5. O silencio INTERIOR é o «lugar» do nascimento da palavra na relação afectuosa quer com Deus quer com os outros. Por isso, um "amigo de Deus" nestas condições, usa a palavra correctamente com os irmãos e de igual modo é usada em relação a Deus!

É indispensável esta própria aceitação. Só nela teremos capacidade para experimentar o amadurecimento psicológico, humano e espiritual...a fé amadurece admiravelmente, condição básica para a revelação de Deus.

52 - A CHAVE DA INTERIORIDADE



A chave da interioridade está em perder os medos...

medos de quê? 

- Da própria pobreza!

A pessoa recolhe-se quando não foge da sua pobreza!

Na verdade é preciso apresentar-se diante de Deus o mais 

     *Desinstalado possível ! 
     *Sem modos nem maneiras estudadas!
     *Sem os próprios recursos que não servem de meio adequado para a união com Deus!
     *Sem defesas.

Diz João da Cruz que uma das grandes claves de dispersão, de ansiedade e de falta de recolhimento, é não querer perder o protagonismo do seu próprio processo e projecto espiritual!

Submergidos na relação com Deus, deixemo-nos modelar por essas relações de Amor que se podem experimentar gozosas ou reduzidas à impotencia, como já falámos algures.

É um caminho a percorrer...um amor a crescer!

A doçura no trato, a amizade fraterna...o acolhimento da fragilidade do outro  são frutos da interioridade  como Amizade afectuosa com o Senhor!

51 - NÃO GOSTA DE REGRESSAR!

O homem e a mulher de hoje, vivemos apanhados pela exterioridade. A cultura moderna, como já vimos, é uma cultura da ausência de nós mesmos em nós. Resulta difícil seguir o conselho dos Padres do Deserto: «VIVERE SECUM». 
É um grande desafio para o mundo de hoje, pois Deus encontra-se verdadeiramente ali "dentro", onde o homem não está. 


Dizemos mais: ali onde o homem não gosta de regressar, porque lhe custa fadiga, esforço, solidão e sacrifício! 

As ventosas da sensibilidade são de tal forma opressoras, que lhe é quase impossível não fazer caso delas!

O revolucionário quer mudar o mundo...e o místico começa a mudar-se a si mesmo!

Esta é a grande diferença.

O Místico, ao começar esta mudança em si mesmo, vai encontrar o TESOURO MARAVILHOSO da presença pessoal de Deus dentro de si.

Porque é que resulta tão dificultosa o recolhimento em Deus, precisamente naqueles que nos dizemos «os Amigos de Deus»? Na verdade muitas vezes a pastoral e a pastoral da oração em particular encontra um grande obstáculo na irrefreável tendência para um «sair de si», numa actividade que muitas vezes é alienante e "desinteriorizante"  tornando muito dificil a serenidade interior e o «regressar» à sua casa como já foi visto anteriormente numa das postagens.

50 -O TEMPO É CURTO E PARA ALGUNS CURTÍSSIMO!

O tempo para podermos regressar à «nossa própria casa» de uma forma permanente não demora apenas uns minutos ou uns dias....

Diz Teresa que o tempo é curto e para alguns curtíssimo...porquê? porque pode acontecer que quando a pessoa se decida a fazê-lo...já não tenha tempo porque o Senhor o veio buscar!...

Apesar da relação com Deus ser afectiva, exige um ambiente e umas condições que não nascem assim espontaneamente... não é um «amor á primeira vista», pelo menos da nossa parte...

Até desde um puro humanismo psicológico, alguém caíu na conta de que, "grande parte do sofrimento que padece muita gente, pode ser atribuído - e não em pequena medida -  ao facto de que vivemos exilados da nossa própria terra natal, i.e. do mundo interior" (A.Maslow)

Aplicado à Oração, a dificuldade reside em não saber-se recolher... i.e. entrar dentro de si! Conseguido isto, consegue-se tudo, pois o Recolhimento - trato afetivo com ELE -  é o Segredo da Oração.

E àqueles que, ao fechar os olhos para se recolherem, sentem a vertigem do vazio sem sentido, Teresa adverte:  «NÃO NOS IMAGINEMOS OCOS, VAZIOS, POR DENTRO!» (C.P. 28,10).

Se, à 1ª vista esta Oração de Recolhimento parece não ser para todos, é só pela dificuldade que muitos têm em «entrarem dentro de si mesmos». Mas este caminho é oferecido a todos, se bem que se exige determinadas condições para poder percorrê-lo!

49 - A CULTURA DA AUSÊNCIA!

Santa Teresa escreve, a seu modo, sobre aquilo que poderíamos denominar a «CULTURA DA AUSÊNCIA» de Deus... a Cultura da distracção de Deus.

Refere-o com a imagem de um belíssimo castelo em cujo centro vive Deus, mas a pessoa humana vive distraída dessa realidade, desse tesouro que possui dentro de si mesma.

Está fora do castelo, da sua própria "casa",  não tendo, por isso, a percepção da profundidade interior que a habita e que só será apreendida com um «voltar a si mesma», recuperando-se como «espaço interior». Isto implica estar fora da verdadeira experiência de Deus que vive nesse castelo perdido, nessa interioridade ainda não recuperada!

A sua própria beleza a ofusca, perdendo a direção ao essencial!

A pessoa tem de «entrar». É imprescindível, mesmo que haja dificuldade.Tem de voltar a prestar atenção à propria interioridade, definida, num primeiro momento com «voltar em si». Deixar de estar derramada no exterior, distraída, ausente de si mesma...

48- NO MEIO DA AGITAÇÃO...



Como dissemos, Teresa também esteve neste dilema e desabafa ela:
«Oh Valha-me Deus, como me espanta a dureza da minha alma, apesar de ter tido tantas ajudas de Deus! Faz-me andar temerosa ao ver o pouco que eu podia e quão atada me via para não me determinar a dar-me de todo a Deus!...eu me admiro agora como podia viver ...» (V. 9,8)

Isto aconteceu há anos...no tempo dela, mas em relação a nós é a mesma coisa!.

Se a luta contra a imaginação e a exteriorização era uma das causas - e segue sendo! -  agora juntam-se-lhe outros:

- O ativismo que mata a capacidade de oração e a possibilidade de contemplação, precisamente pelo excesso de actividade. Uma actividade boa em si mesma...mas o excesso mata a capacidade de relação e interioridade na intimidade com Deus!

Disse João Paulo II «Para encontrar-se com o Mistério, exige-se paciência, purificação interior, silêncio, espera!».

É imprescindível vivermos atentos que é o contrário ao que estamos habituados. Infelizmente a ausência e a distracção é praticamente o nosso estado habitual...

No meio da agitação extrema...como poderá a serenidade brotar? ...

47 - MENTE SERENA




 
Um dos frutos desta interioridade como relação afectuosa com ELE é ter uma mente serena para, no meio do tumulto, das «tempestades», das urgências da vida ganhar as condições necessárias para poderem desenvolver a Vida Teologal.

Sabemos perfeitamente que Deus nos espera na solidão do nosso coração e que, para encontrá-LO temos de sacrificar o nosso ser mais íntimo, quando tendemos á dissipação, à fragmentação interior...á divisão que arruína as nossas capacidades de relação.

Mas tememos essa solidão e esse sacrifício e convencemo-nos que temos de nos ocupar em muitas coisas...encontros..reformas...pastorais...o pôr-se em contacto com «o mundo»! é claro que tudo isso é bom, mas não são a coisa mais importante!

Tarde ou cedo teremos de enfrentar a realidade de Deus dentro de nós! Teresa, na sua vida confessa que também esteve nesse dilema...

46-É ASSUNTO AFECTIVO!










Teresa de Jesus, sabia muito bem o que propunha às suas Irmãs e amigas. O Recolhimento é assunto afectivo! é um modo afectuoso de relação e isto é central para o equilibrio humano!


Nós vemos o que acontece no mundo das relações humanas e sabemos o quão imprescindivel é amarmos e sermos amados...

Na eternidade este assunto da afectividade vai continuar...A polarização do nosso ser será DEUS,  que é a Fonte e o AMOR em Pessoa.

Enquanto não se compreendeu a necessidade do olhar interior e enquanto não se comece a praticar o recolhimento, não se pode ter experiência alguma significativa do verdadeiro trato com Deus!

A esterilidade de tantas obras exteriores radica daqui. Só com o coração a transbordar desta relação afectuosa com o Senhor é que concede a marca de Deus a tudo quanto faz e toca!
O RECOLHIMENTO NÃO É OPCIONAL é necessário para progredir, avançar, crescer...é uma resposta cabal e eficaz às necessidades mais profundas da pessoa humana.

45 - POUCA SIMPATIA?



Apesar da pouca simpatia que a nossa proposta da Oração de Recolhimento  encontra em não poucas pessoas, há que propô-la, pois é na INTERIORIDADE que o homem se salva!

A nossa vida  «exterior» é um dos escolhos mais sérios para a verdadeira relação com Deus. Muitas «boas-vontades» permanecem estéreis e isto deve-se a uma espécie de dissipação interior e ausência quase completa dessa mesma interioridade, capacidade de entrar dentro de si mesmo.

Teresa não se cansa de dizer que antes da experiência de Deus, há que haver a experiência de nós em nós mesmos...

O que faz a diferença entre a "religiosidade vaga" da sólida é precisamente o hábito e a capacidade de uma vida recolhida, facilitando a interioridade e a intimidade pessoal com Deus.

44 - A NOSSA PRÓPRIA MENTE PODE SER O NOSSO PIOR INIMIGO!

Teresa foi sempre consciente da dificuldade que existe, especialmente para algumas pessoas para se recolherem dentro de si mesmas.

Destas dificuldades já os Padres do Deserto falavam delas!

Além das dificuldades tradicionais, pois «não é fácil tirar uma coisa tão dificultosa como é a nossa imaginação», estão as dificuldades que o mundo moderno oferece com os seus elementos novos de distracção, com as suas urgências, correrias, penas, abatimentos, sofrimentos, ansiedades.

Como estamos acostumados a um mundo acelerado e em constante movimento, é perfeitamente normal que nos sintamos desorientados quando esse movimento se detém!

Inclusivamente só o pensamento de pararmos pode suscitar em nós alguns medos. A nossa própria mente pode ser o nosso pior inimigo!

43- O QUE NOS OPRIME VERDADEIRAMENTE!


O mundo moderno não possui a tendência para a interioridade. A calma, a quietude, o sossego e o silêncio crispam essa vida e, contudo, o mundo,  precisa do Recolhimento para sobreviver! para entrar numa paz duradoura! para encontrar o seu ponto de equilíbrio! quando dizemos «o mundo» é cada um de nós que o formamos!

O que nos oprime verdadeiramente são as actividades do EGO que falseiam e colocam máscaras na nossa vida e que, apesar de pretenderem criar uma alternativa de vida, resultam incontestavelmente insuficientes para o anseio profundo da pessoa humana que foi criada para Deus!

Krishnamurti diz que «As actividades do EU são espantosamente monótonas! o "EU" é inoportuno, enfadonho, aborrecido e impertinente. É intrinsecamente enervante, sem agudeza e além disso frívolo. Os seus desejos, opostos e em conflito, as suas esperanças e frustrações, as suas realidades e ilusões são escravizantes e vãs. A sua actividade conduz ao seu próprio cansaço! O "EU" está sempre "trepando" e caindo, ganhando e perdendo; e deste fastidioso círculo de frivolidade trata continuamente de escapar. Foge através da activvidade externa ou por meio de agradáveis ilusões: bebida, sexo, diversões...O seu poder de gerar iilusões é complexo e vasto!».

42- UM DESAFIO PARA O MUNDO



Na verdade, este desafio da interioridade resulta - ao homem moderno - quase impossível, e contudo, o repouso não é um luxo mas uma necessidade especialmente para a nossa cultura.

Não o sabemos apreciar convenientemente.

Estar longe das correrias e do barulho pode ser agradável como pausa, como descanso de fim de semana...sim!, mas não como âmbito de interioridade e de revelação interior, como recuperação real de si mesmo.

Muitos de nós não estamos preparados, talvez, por causa de uma escandalosa divisão interior.

Muitos não somos «neuróticos»...somos só normais....
Muitos  somos «normais»...mas não sábios....
Muitos somos «sábios» mas não santos....

Somente a santidade aperfeiçoa a nossa humanidade, ao aperfeiçoar a nossa relação afectuosa com Deus.

41- ESTE AMIGO ESPREITA-NOS!

 "EU DENTRO DE DEUS"...e "DEUS DENTRO DE MIM"...:  Deus e «eu» somos os protagonistas desta relação amistosa e afectuosa!

Este AMIGO VERDADEIRO espreita-nos para nos lançar oportunidades de relação! 

Teresa, nas suas conversas familiares com Jesus, um dia ouviu d'Ele o seguinte:  «Não trabalhes tu, em ter-ME fechado em ti, mas de fechar-te tu em MIM». 

Deus é o ambiente propício para a interioridade...Deus em mim e eu em Deus!

É interessante o que Paulo da Cruz recomenda a uma pessoa que não estava disposta para a oração devido à vida que, parece, havia tido! Aqui estão as suas palavras:

«O seu estado presente reclama fidelidade constante ao Supremo Bem... como se arranjará para ser fiel, você que se reconhece por experiência a mais miserável das criaturas? Já lhe direi em seguida. Fugindo de si mesma como da peste, saindo do temporal para esconder-se no Seio imenso do divino Pai Celestial, que vive fora do tempo ...» e que está dentro de nós próprios!

RECOLHER-SE ...um desafio tão simples para os amigos de Deus, mas tão enorme e quase impossível para o mundo...Paulo Chauchard em «domínio de si mesmo» diz que «O homem moderno não pode permitir-se o luxo do repouso» ...que quererá isto dizer? ....

40 -MEDO DE QUÊ?

Entrar dentro de nós...dá medo, sobretudo ao princípio...medo ...de quê?

O recolhimento, como entrar na interioridade de nós mesmos, recupera-nos a nós mesmos: É uma antropologia que nos realiza como pessoas; uma teologia que explicita a nossa fé e uma mística na qual a pessoa é configurada silenciosamente no mistério de esconder-se com Cristo em Deus!

O orante encontra em si mesmo a atmosfera ideal para a relação amorosa: é Deus, dentro da qual vivemos (Actos 17,28).

Dizia o Senhor a uma das Suas amigas: «Caminha, minha filha, com a tua cabeça dentro de Deus» (Gabriela Bossis)

Caminha, i.e.:
 - Entra dentro de ti, aprofunda a tua própria presença.
 - Sossega a Inteligência: simplifica a mente.
 - Põe-te a amar o Amado!

Deixar estabelecer a cordialidade mediante um colóquio espontaneo ou uma frase ou palavra... Esta frase ou palavra não deve ser analisada, reflectida, mas simplesmente dita amorosamente, afectuosamente...uma e outtra vez como expressão da nossa sinceridade e interioridade.

É bom permanecer assim até que chegue o silêncio e apareçam os 3 sinais que João da Cruz indica, permitindo reconhecer a validade do estar-se em silencio com Deus e sobretudo dentro de Deus!


39-O MUNDO NÃO ENTENDE QUANDO FECHAMOS OS OLHOS

A interioridade do recolhimento nos submerge gradualmente no silêncio,  numa obscuridade tripla mas necessária:

  1. A da obscuridade do mundo, que se deixa ao fecharmos os olhos para entrarmos dentro de nós
  2. A de um Deus que é um Deus do silencio, escondido dentro de nós!
  3. A de nós mesmos! 
  1. O mundo não pode entender o gesto de fecharmos os olhos para entrarmos dentro de nós mesmos...A exterioridade tem muita força quando a fé não é forte! e a exterioridade e a superficialidade - estar fora do Castelo Interior da nossa "alma" -  mata a capacidade para a experiência mística verdadeira, que é verdadeira relação afectuosa.
  2. Gostariamos que Deus se manifestasse, assim logo á primeira...sem nenhuma paciência da nossa parte. O silencio deste Deus escondido, é pedagógico e necessário! Não O podemos conhecer se não estivermos nas condições mínimas para essa experiência pessoal de relação.
  3. O Recolhimento nos submerge na nossa própria unção (Jo 2,26-27) interior. É ali onde brota a força, a sabedoria que nos ensina e transforma a nossa vida e o nosso olhar. Quando o orante se submerge dentro de si, oculta-se incluso a seus próprios olhos, aceita essa «morte» a tudo quanto é visível para «perder-se» na Infinita beleza da sua fonte interior....